Por que repetimos os mesmos conflitos nos relacionamentos? Um olhar da psicanálise.

É frequente ouvir no consultório queixas que parecem roteiros de um filme repetido. O rosto do parceiro muda, o cenário se altera, mas a dinâmica do sofrimento permanece a mesma. Nesse contexto, muitas pessoas chegam à análise acreditando que possuem “dedo podre” ou que são vítimas de um destino cruel nos relacionamentos.

Contudo, para a psicanálise, essa repetição não é obra do acaso. Pelo contrário, ela obedece a uma lógica inconsciente rigorosa. Portanto, compreender por que insistimos em cenários que nos fazem sofrer é o primeiro passo para, finalmente, escrever uma nova história.

A compulsão à repetição: o passado que não passa

Freud, o pai da psicanálise, identificou um mecanismo psíquico chamado “compulsão à repetição”. Basicamente, isso significa que tendemos a repetir, em atos, aquilo que não conseguimos recordar ou elaborar em palavras.

Dessa forma, não escolhemos nossos parceiros aleatoriamente. Na verdade, buscamos no outro traços que nos remetem às nossas primeiras experiências de amor e cuidado (geralmente com figuras parentais), mesmo que essas experiências tenham sido difíceis ou dolorosas.

Por exemplo, alguém que teve pais muito críticos pode, inconscientemente, buscar parceiros que também o desvalorizem. Isso ocorre porque, para o inconsciente, aquela dinâmica, embora dolorosa, é familiar. É o que o sujeito conhece como “amor”.

O parceiro como ator do nosso teatro interno

Sendo assim, podemos dizer que o parceiro amoroso entra em nossa vida para ocupar um lugar que já estava vago em nossa fantasia. Ou seja, contratamos “atores” para interpretar papéis em nosso teatro interno.

Consequentemente, os conflitos se repetem não porque o outro é o vilão, mas sim porque nós o convocamos, sem saber, a agir daquela maneira.

  • A queixa comum: “Ele nunca me escuta.”
  • A pergunta analítica: “Por que eu escolho, repetidamente, alguém que não pode me escutar?”

Além disso, quando a paixão inicial arrefece e o outro mostra que é diferente daquilo que fantasiamos, a crise se instala. Nesse momento, o sujeito se vê diante da castração: o outro não é perfeito e não pode nos completar.

Como a análise pode quebrar esse ciclo?

Se a repetição é automática e inconsciente, como sair dela? Certamente, não é através de conselhos rápidos ou “dicas para segurar o parceiro”. O trabalho analítico propõe um caminho inverso: a implicação subjetiva.

Em outras palavras, a análise convida você a parar de reclamar do outro e a olhar para a sua própria responsabilidade na escolha. Afinal, o que esses conflitos dizem sobre o seu desejo? O que você ganha (mesmo que seja um ganho de sofrimento) ao permanecer nessa posição?

Portanto, ao falar sobre suas escolhas amorosas em um espaço de escuta qualificada, você começa a identificar os padrões que regem sua vida. A partir disso, torna-se possível fazer escolhas menos mortíferas e mais alinhadas com quem você é hoje, e não com a criança ferida do passado.

Construindo novos sentidos para o amor

O objetivo de uma análise não é garantir um “felizes para sempre”, visto que o conflito é inerente às relações humanas. No entanto, é possível transformar a forma como lidamos com ele.

Em suma, deixar de repetir para começar a elaborar. Assim, o amor deixa de ser uma prisão do passado para se tornar um encontro possível no presente, com todas as suas imperfeições e belezas.

Se você percebe que está preso em ciclos de repetição e deseja compreender a sua participação nisso, o espaço analítico é o lugar adequado. Agende uma sessão e inicie seu percurso de elaboração.

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